Capa da Publicação

Vingando o Legado: Homem de Ferro

Por Gus Fiaux

Atenção: Alerta de Spoilers!

Gênio, milionário, playboy, filantropo. Quando Homem de Ferro chegou aos cinemas, em 2008, não estávamos preparados para o rebuliço que o filme causaria dentro do status quo das adaptações de quadrinhos de super-heróis. O mundo estava apostando em uma estética mais sombria e realista, graças à franquias como a trilogia do Cavaleiro das Trevas e o Universo dos X-Men, mas aqui foi a primeira vez em que pudemos ver algo que seguisse a tendência dos quadrinhos enquanto ainda nos oferecia uma perspectiva verossímil do mundo.

E claro que o filme não funciona apenas como uma obra separada. Aqui, dava-se o início do Universo Cinematográfico da Marvel, uma franquia multibilionário que, atualmente, se encontra em seu ápice devido ao lançamento de Vingadores: Ultimato – filme que também serve como despedida do herói que aprendemos a amar desde sua estreia.

Tony Stark, mais do que qualquer outro herói dos Vingadores originais, representa um lado humano muito particular. Ele é um herói – mas isso não o exime de suas falhas e defeitos, que o ajudam a ser um personagem complexo e, acima de tudo, carismático.

Quando conhecemos Stark pela primeira vez, ele está longe de ser a figura aclamada que é atualmente – na verdade, no cenário atual, ele até poderia ser visto como um vilão. Industrialista do mercado armamentista, o playboy milionário é isento de todos os problemas ao seu redor e adota uma postura irresponsável com sua empresa, pouco se importando com as vidas que são perdidas no caminho.

Tony Stark, o gênio bélico.

A sua transformação em herói se deu de uma forma gradativa e interessante, porque sua ascensão compactua totalmente com o conceito da Jornada do Herói. Ele começa como alguém que, apesar de viver em um mundo “normal”, logo é chamado pela guerra – e de início, ele recusa o convite, por mais que seja uma peça fundamental nos bastidores da carnificina.

Ao ser mantido refém em uma caverna por um grupo terrorista, temos o começo de sua ascensão. Em poucos dias, Tony Stark é obrigado a reavaliar seu conceito sobre os seus produtos, e como eles são usados para fomentar tragédias no mundo todo. É aí que ele percebe como suas mãos estão manchadas de sangue. E assim começa uma jornada de redenção. 

A essa altura do campeonato, não é preciso dizer que esse elemento condiz bastante com a história de Robert Downey Jr., um ator que passou por maus bocados e que se entregou a uma vida irresponsável, nas drogas e na bebida. Não é surpresa para ninguém que Homem de Ferro tenha sido o filme que tirou sua carreira da lama e o deu um motivo para seguir em frente.

Stark sempre foi o líder das soluções práticas. Se ele via uma saída fácil, sua investida principal seria nela, antes de considerar as repercussões que isso poderia causar. E isso é algo que se mantém firme no Universo Cinematográfico da Marvel até hoje. Ainda assim, a ideia de construir uma armadura tecnológica está longe de ser uma “saída fácil”, por mais genial que seja o personagem.

E é isso que torna sua jornada tão interessante. A partir do momento em que construiu seu primeiro traje “de ferro”, ele percebeu que a vida era um pouco mais complicada do que pensava. É isso que o motiva a se tornar um herói, para corrigir as mortes causadas pela sua própria empresa, sem que sequer tivesse conhecimento disso.

Tanto que, falando ainda do primeiro filme do herói, é muito emblemática a cena em que ele viaja ao Oriente Médio com seu traje mais avançado (até o momento) para derrotar os Dez Anéis, a organização terrorista que era financiada secretamente por um aliado industrial do personagem, Obadiah Stane.

E é aqui que temos um tema recorrente na franquia do personagem – e em suas subsequentes aparições em outros filmes da Marvel Studios: o avanço predatório industrial e o uso da tecnologia para fins perversos. Quanto à indústria, vimos aqui um herói tendo que cortar o mau pela raiz – e percebendo que, ao se reconhecer como parte do problema, a solução encontrada viria mais logicamente.

Após seu arranque inicial, temos Homem de Ferro 2um filme que não é muito bem-visto pelos fãs – mas que ainda cumpre um propósito fundamental. Se o primeiro longa serviu para nos apresentar o herói, o segundo serve como uma sequência direta da cena pós-créditos do original, na qual Nick Fury aparece para dizer que ele não é o único salvador da pátria andando por aí.

Em seu segundo longa, Tony Stark é obrigado a reavaliar sua posição como super-herói. E não apenas de um ponto de vista externo, já que ele testemunha o surgimento do Máquina de Combate e da Viúva Negra, mas também de uma maneira introspectiva. Infectado por paládio, a substância que o mantinha vivo, o personagem agora precisa lutar para se manter absoluto, enquanto lida com o alcoolismo (de uma maneira bem mais sutil do que na saga O Demônio na Garrafa, que inspira parcialmente a trama).

Além disso, a trama industrial e científica volta com tudo na forma de Ivan Vanko, um vilão que consegue “fazer um deus sangrar” e cuja origem demonstra os perigos da indústria predatória, seja devido ao seu pai, que trabalhava junto com Howard Stark, seja por se submeter ao legado de Justin Hammer (que, por sua vez, é uma versão menos talentosa e inteligente do Tony que conhecemos no início do primeiro filme).

Passada essa fase, Stark percebe que precisa mudar muito em alguns quesitos para se encaixar como um super-herói. E é aí que entra Os Vingadores, o crossover que mudou tudo. No filme da equipe, é seguro dizer que Stark é o ponto primordial, seja nas discussões com o Capitão América ou seja nas soluções para os problemas, já que ele sempre é o que apresenta uma ideia para resolver os conflitos.

No longa, Stark finalmente conhece o “mundo maior” do qual Nick Fury sempre falava. Ele não apenas se surpreende ao ser colocado junto de outras pessoas com super-poderes, como também acaba descobrindo vida alienígena e ameaças com as quais a humanidade sequer desafia sonhar.

É por isso que, ao fim do filme, quando ele faz o seu “sacrifício” de levar uma bomba até a nave-mãe dos Chitauri, através de um buraco de minhoca, sua carreira como herói finalmente se solidifica. Se antes víamos alguém tentando ainda compreender como funcionava o altruísmo, salvando vidas aqui e ali, agora temos alguém que está literalmente disposto a morrer para salvar o planeta. E isso seria algo muito importante no futuro, especialmente em Ultimato.

No controverso Homem de Ferro 3, temos uma dicotomia muito interessante. Trata-se do filme em que o personagem fica mais tempo despido de sua armadura – forçando-o a trabalhar puramente com seu intelecto – ao mesmo tempo em que é o longa que mais discute a ligação vital entre o homem e a máquina.

Por mais criticado que seja, é interessante observar como esse filme bebe fortemente das consequências de Os Vingadores. Particularmente, eu diria que é o longa que ditou o tom da encarnação atual do personagem: alguém fragmentado, com estresse pós-traumático e disposto a tudo para proteger o mundo em que vive – seja construir diversas armaduras ou sacrificar sua própria sanidade no processo.

Máquina e homem

E então passamos para Era de Ultron, que desconsidera completamente o fim do terceiro filme do herói (com Stark destruindo todas as suas armaduras) e mostra o Homem de Ferro novamente como “o escudo ao redor do mundo”. Aqui, ele construiu um exército de robôs que ajudam os Vingadores a concluírem suas missões, seja controlando as multidões ou realizando tarefas menores, “desocupando” um pouco os Heróis Mais Poderosos da Terra.

Quando finalmente tem a oportunidade de criar uma inteligência artificial que possa fazer todo o trabalho heroico, ele não pensa duas vezes. Infelizmente, Ultron acaba sendo bem menos nobre que as intenções por trás de sua criação, e então Tony Stark se vê mais uma vez confrontando a tecnologia desgovernada, que mesmo criada de forma legítima, acaba fugindo de controle e se tornando uma forma de aniquilação em massa.

E é com isso que a jornada do personagem o leva para Capitão América: Guerra Civil. No filme, o Vingador Dourado está mais consciente do que nunca a respeito de suas ações, e isso faz com que ele tome o lado das autoridades, escolhendo o registro e o monitoramento dos super-heróis (em grande parte porque ele sabe o que pode acontecer caso essas pessoas não sejam vigiadas, já que ele próprio sabe o que fez no passado).

E é justamente aqui que a vida do herói toma uma guinada vertiginosa. Nesse ponto, é interessante observar como ele, que sempre foi alguém que desafiou as autoridades – basta lembrar da cena no tribunal de Homem de Ferro 2 – vê a necessidade em buscar alguma forma de conforto “oficial” para os problemas que esse mundo, cada vez mais recheado de super-heróis e super-vilões, vem testemunhando.

Se traçarmos uma comparação diametralmente oposta, vemos o mesmo com o Capitão América, do outro lado do espectro (mas isso é assunto para outro dia). Tony está consciente que uma armadura não é a solução de seus problemas, e que os heróis precisam tomar mais responsabilidade por seus atos. E ele sabe disso apenas porque já foi responsável por atos inconscientes e impensados. No fim das contas, é uma jornada mais pessoal do que qualquer outra coisa.

E é justamente por isso que o fim do filme toma dimensões ainda mais humanas. Em vez de mostrar as consequências dos Acordos de Sokóvia, a Guerra Civil termina com um conflito pessoal – o que remonta a todas as falhas e defeitos do herói, que o tornam um personagem tão profundo. Mesmo em meio ao caos, ele se vê desesperado para se vingar do homem que matou seu pai – e aliás, a paternidade é algo fundamental na vida do personagem.

Não é à toa que Tony se torna o tutor do Amigão da Vizinhança em Homem-Aranha: De Volta ao Lar. Os fãs podem até não gostar disso, mas é uma relação que beneficia ambos os personagens, e que mostra como Stark, tendo perdido tudo o que já perdeu, passa a servir como uma inspiração para uma nova geração de heróis. E ao apadrinhar Peter Parker, ele fecha o ciclo e se torna o “pai” de um novo herói, apresentando-o ao mundo e abrindo mais uma vaga para os Vingadores, que estariam prestes a passar por uma mudança trágica.

E nada consegue ressoar melhor com o sentindo de tragédia do que Vingadores: Guerra Infinita. No longa, vemos o fechamento de outro ciclo – um apresentado em Era de Ultron, quando Tony testemunha uma visão e vê todos os seus aliados caídos. Aqui, vemos o herói finalmente partindo para a “fronteira final” que tanto temia, apenas para encontrar morte e devastação nas mãos de Thanos. 

Narrativamente falando, é um filme bem simples dentro do histórico do Homem de Ferro, mas é o que prepara o terreno para Vingadores: Ultimato, o longa mais recente da franquia – e a despedida definitiva de Tony Stark. 

Toda a história do longa gira em torno do medo e da culpa. Culpa pelo que foi perdido, e medo de perder o que ainda resta. Nesse sentido, é extremamente fascinante ver Tony e Pepper Potts casados e felizes, com a adorável Morgan Stark como filha. É justamente essa vida que Tony receia perder caso parta em uma jornada novamente com os Vingadores (retornando ao conceito da Jornada do Herói).

Ainda assim, os anos de experiência o calejaram e ele agora sabe o que é certo a se fazer, por mais que não seja fácil. Sua responsabilidade para com o mundo vai além de seus medos, e aqui temos o enfrentamento definitivo de todo o estresse pós-traumático causado pela invasão dos Chitauri – não é à toa que Tony revisita justamente a Batalha de Nova York, em busca das Joias do Infinito. 

O fim de uma era

Além disso, é o filme que encerra diversas outras tramas deixadas em aberto em sua franquia. A paternidade retorna com tudo aqui, seja na relação de Tony com sua filha ou no reencontro do herói com seu pai, Howard Stark, em uma viagem aos anos 70. É a comprovação de que o legado do Homem de Ferro é muito maior do que uma armadura ou dispositivos tecnológicos.

Ao fim, ele é uma das peças cruciais na batalha final contra o Titã Louco – e não é à toa que o Doutor Estranho tenha sacrificado a Joia do Tempo para salvá-lo, em Guerra Infinita. Ele é o único que pode roubar as Joias do Infinito e usá-las para derrotar o império de Thanos – por mais que essa ação exija o sacrifício supremo.

E a sua jornada termina assim. Com puro altruísmo e responsabilidade. O Homem de Ferro, de muitas formas, é o pilar primordial que segurou o Universo Cinematográfico da Marvel durante sua fundação. Mesmo com outras peças no tabuleiro, ele não deixou de ser um jogador importante, e sua conclusão em Ultimato é a prova de que (além de possuir um coração), a construção do herói o levou a enfrentar suas responsabilidades e medos para se tornar um herói humano e falho, mas nobre e implacável.

O personagem ainda mora nos nossos corações, e não deve sair deles por um bom tempo. Mas todas as histórias chegam ao fim – e o final do Homem de Ferro é o que proporcionou o começo de uma nova era de heróis. A história chega à sua conclusão e o ciclo se renova. Mas Tony Stark é e sempre será digno da alcunha de Vingador Dourado.

Na galeria a seguir, fique com os pôsteres individuais do mais recentes filmes do Universo Cinematográfico da Marvel:

Vingadores: Ultimato está em cartaz nos cinemas.

Imagem de perfil
sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux