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Filmes ruins de jogos que amamos!

Por Raphael Martins

Pokémon: Detetive Pikachu estreou recentemente nos cinemas do mundo inteiro, lotando salas de cinema, agradando fãs e leigos e fazendo Warner Bros., The Pokémon Company e Nintendo sorrirem de orelha a orelha enquanto contam seus (muitos) dólares.

Ao irem na contramão dos tradicionais duelos entre treinadores e apostando no carisma inerente de cada Pokémon, a equipe de produção apresentou uma história simples, divertida e emocionante, que conquistou a criançada, captou o coração dos mais velhos e deu tão certo que já tem uma sequência, ou várias delas, já em desenvolvimento.

Mas não foi só isso que o filme fez. Ele também reacendeu a velha discussão sobre por que adaptações de games para as telas não funcionam e mostrou que sim, é possível levar um game aos cinemas sem se prender a necessidade de contar a mesma história vista nos jogos ou de inventar algo novo usando apenas certos elementos da trama.

Ainda assim, a indústria do cinema ainda tenta aprender a retratar essa outra mídia, tão grande quanto a própria sétima arte, de uma maneira satisfatória. Afinal, por que é tão difícil dar ao público o que ele quer ver?

Detetive Pikachu: a melhor adaptação de um game para os cinemas já feita?

Bom, para começo de conversa, o próprio público nunca entrou em acordo sobre o que quer exatamente. Seja ele algo que toma liberdades criativas até demais, se afastando muito do material original, ou algo exatamente igual ao que foi visto nos consoles, isso gerará críticas. Então, quando algum estúdio de Hollywood anuncia que vai encabeçar a versão cinematográfica de algum jogo, geralmente a reação dos fãs de games é de desconfiança e descrença. Aliás, isso já começa bem antes: basta algum site noticiar que algum estúdio adquiriu os direitos de um game querido para a negatividade na internet começar.

É claro, um estúdio adquirir os direitos de adaptação de alguma propriedade intelectual não quer dizer que o filme será feito. Temos muitos exemplos de animes, mangás e outros jogos que tiveram suas licenças adquiridas por Hollywood há muitos anos e nunca saíram do papel. Mas assim como acontece com os animes, os fãs de games por vezes torcem para que isso realmente aconteça e a tal adaptação jamais veja a luz do dia.

Não se pode culpá-los, é claro. Foram anos de filmes ruins, comandados por pessoas que não tinham nenhum conhecimento do material base, e se tinham, o ignoravam completamente em nome de soluções fáceis que deram certo em outros filmes ou simplesmente transformavam tudo em algo genérico e sem alma, seguindo algoritmos de lucro fácil que nem sempre são infalíveis. A falta de esmero em cada aspecto técnico e de amor pela obra original traumatizaram muita gente, pessoas que não querem voltar sentir a frustração de torcer para dar certo e ver tudo dando errado.

Milla Jovovich em Resident Evil: o game gerou seis filmes e muita bilheteria, mas os fãs da franquia torcem o nariz

Entretanto, nem só de falhas vivem os games no cinema. Houve, sim, acertos, e embora os erros sejam bem mais numerosos, eles não apagam o que deu certo. O primeiro Mortal Kombat, de 1995, é uma das poucas unanimidades entre os fãs de games.

Pegando carona no sucesso do terceiro game, mas adaptando o primeiro, Mortal Kombat soube utilizar seus personagens de maneira bacana, mostrando coreografias de luta empolgantes e uma trilha sonora que marcou época, continuando divertido de se assistir até hoje. Mais ainda: ajudou a expandir a mitologia do próprio jogo, que passou a utilizar elementos mostrados nos filmes para contar suas histórias, como o fato de Raiden ser o protetor do Plano Terreno, por exemplo.

Outro filme que pode ser considerado um acerto, embora não seja unânime como Mortal Kombat ou lembrado por todos, é Príncipe da Pérsia: As Areias do tempo, estrelado pro Jake Gyllenhaal. A produção tem lá suas diferenças criativas com o game, mas consegue adaptar o primeiro jogo da trilogia Sands of Time de maneira divertida, mostrando na tela coisas como o parkour do personagem principal e a adaga do tempo em ação.

Guerreiros do Plano Terreno reunidos em Mortal Kombat: mais de 20 anos depois, continua um filme divertido

Sendo assim, por que continua sendo tão difícil ver bons filmes baseados em games no cinema? Bem, parte da culpa cai sobre os próprios estúdios, alguns com ideias bem ultrapassadas sobre o que dá dinheiro e o que não dá em filmes desse tipo. É bastante comum nesse tipo de produção a interferência de executivos engravatados, que tem o poder conferido a eles por “gente de cima” de vetar ou aprovar decisões criativas de roteiro, direção, escalação e todas as demais etapas que esse tipo de produção exige.

Essa interferência acaba gerando um clima de vigia, pressão, desconforto e confusão, que acabam por minar ideias que poderiam ter dado muito certo se tivessem sido ouvidas desde o começo. Histórias de gravações conturbadas e interferências ilógicas em filmes desse tipo estão aí na internet para quem quiser ler. E nem é preciso procurar muito.

É claro que não dá para falar sobre produções conturbadas em filmes baseados em games sem citar Super Mario Bros., o filme que começou tudo. Estúdio e diretores não concordavam sobre o tom da produção, com um querendo que fosse mais leve e para a família e o outro que fosse mais escuro e adulto; os atores não acreditavam que o filme daria certo e bebiam durante as gravações; e mesmo muitos anos depois, quando perguntados sobre qual o pior trabalho de suas vidas, todos os envolvidos respondem a mesma coisa: Super Mario Bros.

No final, o legado do filme foi de fracasso, algo tão desastroso que a Nintendo nunca mais tentou se aventurar no cinema de novo… pelo menos até Detetive Pikachu chegar.

O Street Fighter de Jean Claude Van Damme é outro exemplo de um filme cuja produção foi o mais completo inferno na Terra. O prazo de filmagens tinha se esgotado com o filme longe de ficar pronto, o orçamento acabou no meio da produção e cortes de equipe técnica tiveram que ser feitos, e o próprio Van Damme não ajudava em nada, já que na época ele passava por problemas com o álcool e drogas pesadas e sempre chegava atrasado, prejudicando a agenda de atores, produtores e de toda a equipe do filme.

Para vocês terem uma ideia, a pessoa contratada pela produção para ficar de olho nele era a mesma que levava cada vez mais substâncias ilícitas para o trailer do ator, que simplesmente não conseguia parar. E fica ainda pior quando lembramos que este foi o último filme do grande Raul Julia, que tinha uma carreira praticamente imaculada até então e enfrentava uma séria doença, que o mataria poucos dias depois de terminar seu trabalho em Street Fighter.

Mas há também as adaptações de games que são, sem dúvida, ruins, mas que acabam dando a volta e se tornando bons. Double Dragon, por exemplo, é uma delas. É claro que não valia muito a pena contar aquela mesma história clichê da namorada sequestrada pelo vilão, algo visto em 11 entre 10 jogos da época, então a equipe criativa teve que rebolar para criar a trama do filme, que tinha Mark Dacascos e Scott Wolf no papel dos irmãos Billy e Jimmy.

O vilão Kogashuko (o eterno T-1000 Robert Patrick) não convencia nem um pouco e os diálogos podiam ser constrangedores em alguns momentos, mas tinha muita ação, coreografias de luta legais, perseguições automobilísticas (que não tem no jogo, mas que a gente releva) e o Abobo, um dos inimigos mais famosos do game. Sem falar que gerou um game de luta feito pela SNK baseado no filme que era bem bacaninha.

Os anos se passaram, os tempos mudaram e a indústria mudou. Ao perceberem que trazer gente apaixonada e profundamente comprometida com o material base renderia filmes melhores e consequentemente mais dinheiro, os estúdios tendem a deixar cada vez mais que esses profissionais façam sem trabalho com pouca ou nenhuma interferência. Os filmes do Marvel Studios são uma grande prova disso, ditando a tendência do que dá certo e garante sessões de cinema lotadas e dinheiro de sobra nos cofres.

Detetive Pikachu pode ter sido o primeiro filme de uma nova leva de produções baseadas nos games que respeitará seus fãs e a trajetória de sucesso dos jogos que os originaram. Dito isso, fica a esperança de que o Uncharted estrelado por Tom Holland e o novo Mortal Kombat produzido por James Wan sejam excelentes filmes, para que os longas inspirados pelos games tenham um futuro tão promissor quanto os filmes estrelados por super-heróis de roupa colorida.

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sobre o autor Raphael Martins

Redator, apresentador e roteirista. Gosto de longas caminhadas na praia, Star Wars, tokusatsu, anime e filé com batata frita. Deixo as pessoas constrangidas. Você pode trocar uma ideia comigo no Twitter: @aqueleraphael