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Precisava mesmo ter explicado isso?

Por Gus Fiaux

Após dissecar a necessidade de versões estendidas em filmes famosos, um pensamento me cruzou a cabeça, devido às grandes notícias que temos tido ao longo das últimas semanas. Se você parar para analisar o site, verá dois tipos de matérias que estão bastante em alta: os diretores de Vingadores: Guerra Infinita falando sobre o filme e Zack Snyder, confirmando milhares de detalhes sobre Batman vs Superman e Liga da Justiça.

Isso reacendeu no público uma constante briga, aqui mesmo nos comentários. De um lado, temos quem defenda os cineastas e diga que faz parte do trabalho, enquanto também há quem diga que falta profissionalismo na hora de confirmar diversos detalhes que não estão explícitos em seus filmes.

Mas afinal, cada caso é um caso, e precisamos analisá-los com cuidado.

Imagine um cenário onde você é um cienasta famoso, que passa anos trabalhando em um projeto passional. Você está envolvido em todos os processos de produção, desde a seleção do roteiro até as filmagens e a campanha de divulgação. É óbvio que, quando esse filme finalmente for lançado, você ainda terá muita coisa para falar sobre ele.

Mas isso também toca em um aspecto bem importante: o bom senso. Até onde é interessante confirmar detalhes para um público ávido e quando isso passa a ser apenas uma maneira de se manter relevante em um cenário onde isso não é mais necessário?

Sem querer partir para os clubismos, precisamos entender a diferença crucial dos comentários dos diretores e roteiristas de Guerra Infinita em relação às revelações feitas por Zack Snyder. De um lado, todas as informações que temos descoberto recentemente fazem parte dos extras e comentários do próprio filme. É um material bônus, lançado junto do DVD e do Blu-Ray, e serve como complemento da obra.

Por outro lado, as informações de Snyder foram deixadas para serem divulgadas aos fãs no VERO, a rede social promovida pelo cineasta. Elas basicamente não tem nenhuma relação oficial com os filmes em questão – podendo inclusive ser desconsideradas pelo estúdio, caso a Warner decida mudar o planejamento em relação aos filmes dos Mundos da DC – que é algo que já está acontecendo.

E por que, afinal, isso pesa tanto?

Há uma diferença essencial quando você produz um conteúdo complementar de um filme, e quando você sai apenas confirmando teorias de fãs a torto e direito na internet – especialmente, falando no caso de Snyder, quando o cineasta em si já não participa mais ativamente da franquia mencionada.

No caso dos comentários de Guerra Infinita, temos em questão uma obra “oficial do estúdio”. Ainda assim, alguns fatores não se justificam. Há uma regra bem nítida no cinema que diz: “não conte, mostre!” Isso é basicamente usado para evitar cenas expositivas, sugerindo aos cineastas que, em vez de produzirem cenas inchadíssimas explicando a trama do filme, basta mostrar ela fluindo aos olhos do público.

O mesmo vale aqui. De que adianta sabermos que a Próxima Meia-Noite e Corvus Glaive são um casal, se isso em momento algum é tornado explícito no filme? Como isso – um comentário, que nem todos terão acesso – pode corrigir um “problema” da narrativa? – no caso, a falta de desenvolvimento e profundidade dos integrantes da Ordem Negra.

O mesmo pode ser dito, no entanto, sobre as diversas declarações dadas por Snyder no VERO. E aqui, no caso, ainda surge um outro fator que torna as coisas mais complexas: a relação entre o estúdio e o diretor. Sabemos que ele já não está nada contente com a brusca mudança de planos da Warner, e também sabemos que o estúdio não quer mais ter relação com o diretor nos seus próximos projetos.

Assim sendo, é no mínimo humilhante ver Snyder usando as redes sociais para confirmar teorias das mais mirabolantes possíveis, como por exemplo, que foi Dick Grayson o Robin que morreu na continuidade padrão dos Mundos da DC – algo curioso, ainda mais quando consideramos que a própria Warner está desenvolvendo um filme do Asa Noturna.

Ou então, quando ele surge para dizer que seus planos futuros incluíam um novo Apocalypse, a Robin Carrie Kelley e até mesmo a inserção de Darkseid na franquia. Isso pega mal não apenas para os fãs, mas também para o estúdio, já que boa parte dessas revelações surge sempre em um contexto onde Snyder parece demonstrar que tinha um plano bem maior para os personagens do que o estúdio.

Isso é bem problemático também quando analisamos especialmente franquias como o Universo Cinematográfico da Marvel, o Universo dos X-Men e os Mundos da DC, por exemplo. O motivo é que essas franquias existem em uníssono por conta de um planejamento interno estruturado pelos produtores. No caso da Marvel, temos Kevin Feige, assim como Geoff Johns na DC.

Se Snyder diz algo que contradiz um plano do estúdio ou de Geoff Johns – como é o caso da morte de Dick Grayson, por exemplo –, isso pode trazer confusão ao público. É então uma irresponsabilidade por parte do cineasta, tendo em vista que seus planos para esses filmes não refletem de forma oficial os planos do resto do estúdio, ainda mais levando em conta que ele nunca deixa explícito que esses planos já podem ter sido descartados pela Warner.

Isso é algo, aliás, que até tangencia a discussão a respeito das versões estendidas, que tivemos no artigo anterior. No caso, você não pode vender ao público e tornar “oficial” algo que apenas uma pequena parcela tem acesso. Nesse sentido, elementos de um “corte do diretor” são tão irrelevantes quanto comentários tecidos na internet, pois o produto final ainda é o filme como foi lançado nos cinemas.

A coisa muda de figura, por exemplo, quando você é detentor total de sua obra. Cito, por exemplo, o caso de J.K. Rowling, autora dos livros de Harry Potter e roteirista da franquia Animais Fantásticos, que se passa no mesmo universo. Como dona da franquia, ela pode muito bem dizer o que quiser a respeito de seus lançamentos, já que teoricamente, só ela poderia se contradizer.

Ainda assim, é sempre recomendável que os criadores, sejam no cinema ou em qualquer outro lugar, explicitem suas obras através de meios “oficiais”, quando precisam acrescentar algo de grande porte. No caso de uma franquia de filmes, se você cometeu um deslize e não inseriu algo muito importante em seu filme, ainda há a possibilidade de corrigir isso através de uma continuação – algo que não precisa ser mastigado em entrevistas.

O mesmo vale para outras questões. Uma coisa é responder uma dúvida de algum fã, que realmente está interessado em descobrir um segredo oculto. Outra coisa é surgir como o detentor da verdade, revelando novidades a torto e a direito apenas para amaciar seu próprio ego na internet – sendo que isso chega a ser desonesto com uma boa parcela do público.

De forma geral, há um limiar que precisa ser considerado na hora em que os envolvidos em produções falam sobre seus projetos. E, por via das dúvidas, se você acha que algo é desonesto com o público, basta se questionar: “isso é algo que precisava ser revelado em uma entrevista ou podia ser simplesmente mostrado no filme?” Se a resposta para a segunda sentença for afirmativa, já sabemos o que pensar.

 

Abaixo, fique com algumas revelações que descobrimos nos extras de Vingadores: Guerra Infinita:

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux