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Nem todo super-herói precisa salvar o mundo!

Por Gus Fiaux

A grande renascença contemporânea dos filmes de super-heróis está atingindo seu auge. Temos filmes para todos os gostos e tipos, desde os longas divertidos e descompromissados do Universo Cinematográfico da Marvel às aventuras sombrias dos Mundos da DC e até os filmes mais adultos do Universo dos X-Men, como Logan e Deadpool.

No entanto, muitos fãs já perceberam a existência de uma “fórmula” na hora de compor filmes de super-heróis. Erroneamente batizada de “Fórmula Marvel” – já que ela pode até ter sido popularizada pelos filmes da Marvel Studios, mas não é exclusiva deles –, trata-se de uma estrutura arquetípico que ecoa os princípios da Jornada do Herói.

E isso está longe de ser um problema. Contudo, a cada dia, temos visto mais filmes que tentam capitanear o sucesso das aventuras heroicas nos cinemas – e alguns acabam sendo vítimas dos mesmos tipos de erros e equívocos. Pensando nisso, chegou a hora de analisar o terceiro ato de alguns filmes do “gênero”, mostrando que nem todo super-herói precisa salvar o mundo.

Parto dessa premissa na ideia de que, nos últimos anos, todos os estúdios querem fazer seus próprios filmes de super-heróis – e, como vivemos em um mundo capitalista, não há nada de errado com isso. O problema, no entanto, começa quando todos tentam repetir elementos que funcionaram em outros filmes, criando uma massa genérica e sem personalidade.

Uma das maiores reclamações do público e dos críticos, no que diz respeito a esse assunto, está na falta de originalidade na hora de compor as grandiosas batalhas finais. Pense bem, quantos filmes você assistiu, nos últimos anos, que terminam com os heróis tendo que salvar o mundo de uma horda de soldados genéricos, enquanto um feixe de luz azul corta os céus?

Esse é, possivelmente, o cenário mais utilizado dentro desse tipo de filme, tendo feito sua primeira grande “participação” em Os Vingadores, e posteriormente sendo reciclado em filmes como o reboot de Quarteto Fantástico e Esquadrão Suicida, dentre outros projetos fora do próprio gênero dos super-heróis, como o terceiro capítulo da franquia Transformers.

E não se resume só a isso. Vários filmes acabam tendo diversos problemas na hora de compor um ato final decente, principalmente pela noção de megalomania e grandiosidade que acaba invadindo algumas produções. Alguns longas esquecem de se beneficiar de uma escala menor, o que poderia até reduzir gastos em termos de orçamento para efeitos visuais.

Por isso que a premissa desse texto é essa: nem todo herói precisa salvar o mundo. E alguns nem sequer deveriam. Enquanto filmes como Homem-Formiga, Logan e Pantera Negra se beneficiam de uma escala mais intimista, ainda que carregada de grandes batalhas e momentos épicos, algumas produções deslizam em sequências mirabolantes demais.

Se você quer alguns exemplos recentes, podemos citar o já mencionado Esquadrão Suicida e o recém-lançado Venom. Ao abordarem vilões/anti-heróis com histórias mais “contidas”, ambos os filmes poderiam ter uma escala bem reduzida, focada em aventuras menores que não envolvessem o destino de todo o Planeta Terra… mas não foi bem isso que aconteceu.

Enquanto, por exemplo, Homem-Formiga e a Vespa sabe brincar com sua própria escala, sendo um filme minúsculo e pontual dentro do Universo Cinematográfico da Marvel, vemos uma equipe de bandidos que nunca teve grande relevância para a DC Comics sendo chamados para se tornarem os próximos “herói” a derrotarem uma ameaça como o Superman? Não faz sentido!

Por outro lado, vale lembrar também que há filmes que tentam se manter fiéis a uma escala menor, mas acabam jogando isso para o alto no ato final, gerando grandes batalhas de CGI que acabam tirando pontos da qualidade total da obra. É o caso, por exemplo, do primeiro Deadpool ou de Mulher-Maravilha, que pecam justamente em seu encerramento.

E não pense que isso tudo se resume a uma questão meramente estética – afinal de contas, a própria narrativa está em jogo. Quando falamos da noção de um universo compartilhado, é comum vermos aquele amigo leigo, que não conhece muita coisa dos quadrinhos mas se amarra nos filmes, dizendo: “Ué, porque o Homem de Ferro não apareceu para ajudar o Capitão América em Soldado Invernal?

Parte disso está enraizado na ideia de que todo super-herói precisa ser o salvador do universo, derrotando um vilão extremamente poderoso que pode acabar com o mundo. Deixamos de ter figuras que podem defender lugares menores, como uma cidade pequena ou um bairro. E os filmes que têm ação “diminuída” às vezes são criticados por isso, como é o caso de Homem-Aranha: De Volta ao Lar.

No entanto, é preciso notar que essa variação no clímax é necessária para que cada filme possa ser diferente, sem que todos sejam iguais em escala e em estruturação narrativa. Agora que Esquadrão Suicida pode ganhar uma “sequência” que não leve em conta os acontecimentos do primeiro filme, seria interessante ver um grupo diferente, em missões bem mais restritas e contidas.

E isso não fica restrito a esse filme, podendo ser incorporado a vários outros universos e franquias afora. Por exemplo, após a derrocada de Thanos em Vingadores 4, o Universo Cinematográfico da Marvel também se beneficiaria de filmes menores, que pudessem explorar o dia-a-dia de alguns heróis dentro de seus territórios.

Com isso, precisamos de mais filmes de super-heróis que saibam respeitar o espírito de algumas HQs, providenciando diversão grandiosa, sem dúvida, mas que nunca beire o megalomaníaco. Se a Terra precisa ser salva, há um motivo e os heróis precisam ser capazes de concluir tal ato.

E, no fim das contas, às vezes, dependendo dos personagens que estão sendo trazidos para as telas, menos é mais.

 

Na lista abaixo, relembre as 10 melhores batalhas finais de filmes de super-heróis:

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux