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E o Oscar de Pior Decisão vai para…

Por Gus Fiaux

Na última semana, não se fala em outra coisa além da nova decisão da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, a respeito da maior premiação de cinema da história: o Academy Awards, popularmente conhecido como Oscar. De acordo com novas informações, rumores e especulações, nos próximos anos teremos a abertura de uma nova categoria: Melhor Filme Popular.

Isso é apenas uma entre as diversas mudanças incentivadas pela Academia, uma vez que a cerimônia tem sido cada vez mais menosprezada e cuja audiência cai gradativamente a cada ano. Além disso, teríamos outras decisões como não televisionar todos os prêmios e tornar a exibição da premiação mais curta.

No entanto, foi justamente a ideia do “Melhor Filme Popular” que tem causado diversas controvérsias. Há quem apoie, porque acha que só assim teremos espaço para ver blockbusters, filmes de super-heróis e outras produções de grande bilheteria na cerimônia. No entanto, outras pessoas não gostaram muito da ideia. E aqui você lerá a opinião de uma delas.

Muitas pessoas tem a noção de que o Oscar é uma cerimônia desenvolvida para premiar as melhores conquistas em categorias técnicas e performáticas de cinema. E, na teoria, isso é verdade. Contudo, ainda há um espaçamento muito grande entre o que se percebe como “arte” e o que se percebe como “mercado” dentro da indústria cinematográfica.

Muito disso parte do princípio que a maioria dos votantes da Academia são senhores de idade que experimentaram uma época onde o cinema não tinha a mesma potência comercial que há hoje. Muitas dessas pessoas já tinham a mente formada quando Tubarão chegou aos cinemas em 1975, ignorando o famigerado “cinema blockbuster”.

Claro que isso mudou razoavelmente nos últimos anos, quando algumas regras foram mudadas e a Academia fez uma “nova seleção” para membros. Agora, temos pessoas mais jovens – o que teoricamente seria um ponto à favor no sentido de desmistificar essa função do cinema “de arte”. Mas poucas consequências foram sentidas – e a prova disso é, nos últimos anos, filmes como Logan e Mulher-Maravilha ganhando pouco ou nenhum reconhecimento.

Porém, como isso é uma questão que até hoje martela na cabeça do público – e pode ser um dos motivos pela queda vertiginosa de audiência –, tivemos o baque ao descobrir sobre a criação da categoria de Melhor Filme Popular, que provavelmente deve entrar em vigor a partir da cerimônia de 2020, que premiará os filmes lançados no ano que vem.

E, se à primeira vista, isso parece ser um bom sinal, porque indica que finalmente veremos blockbusters sendo levados a sério, a coisa vai por água abaixo quando consideramos outras duas categorias importantes da premiação: Melhor Filme Animado e Melhor Filme Estrangeiro.

Ambas as categorias recebem uma forte rejeição por parte dos cineastas, e os motivos são nítidos. Teoricamente, uma animação que concorre ao prêmio de Melhor Filme Animado poderia, de fato, concorrer à maior categoria da noite, Melhor Filme.

E eles até podem, na verdade. Contudo, por já terem uma categoria específica, eles jamais são levados a sério quando são anunciados no prêmio principal. Tanto é que, até hoje, após a criação dessa “categoria coadjuvante”, apenas 2 filmes foram indicados a Melhor Filme: Up: Altas Aventuras e Toy Story 3. E, como era de se esperar, nenhum deles levou a estatueta para casa.

E se esse caso já é revoltante, o caso de Melhor Filme Estrangeiro consegue revirar ainda mais o estômago. Essa categoria foi feita para premiar todos os filmes cujo idioma original não é inglês – tanto que seu nome original é “Best Foreign Language Film”.

Assim sendo, o prêmio de Melhor Filme fica focado apenas em produções americanas e, no máximo britânicas. Até hoje, tivemos poucos casos de filmes estrangeiros que foram adicionados à categoria principal, e uma boa parte deles, como é o caso de O Tigre e o Dragão ou Babel e Cartas de Iwo Jima, são co-produções com os Estados Unidos.

Quando se lança a ideia de um Melhor Filme Popular, a primeira coisa que vem à cabeça é isso: esses filmes terão uma “categoria própria” justamente para serem tirados da jogada no que diz respeito a Melhor Filme. E se, no passado, longas como Mad Max: Estrada da Fúria e Corra!, ou até mesmo a trilogia do Senhor dos Anéis tinham uma grande chance de levar o prêmio da noite para casa, agora as chances serão mínimas.

Claro que, olhando do ponto de vista dos estúdios, isso não é um grande problema, pois ainda gera buzz e é mais uma maneira de “autenticar” suas obras. No entanto, isso é bem problemático analisando um contexto geral, já que serve para separar ainda mais a ideia de um “cinema de arte” para um “cinema do povo”.

Aliás, a própria noção do nome da categoria já é problemática. Estamos acostumados a tratar “popular” como um termo quase pejorativo – não é à toa que a música pop levou anos para ganhar respeito entre músicos conservadores.

E, afinal de contas, o que seria um filme popular? Quais os critérios de avaliação? Porque nesse sentido, até Titanic pode ser considerado nessa leva. Seria uma maneira de encaixar gêneros que não são bem-vistos pela Academia, como ficção científica, horror, ação e fantasia? É uma indefinição grande demais.

Ainda assim, só as próximas edições da cerimônia nos dirão se isso vai de fato vingar e se o público estará disposto a ver seus filmes favoritos receberem esse “prêmio de consolação”. Mas por ora, o Oscar já está parecendo política: o que precisamos, de fato, é uma reforma geral. Mas a Academia só investe em remendos.

Abaixo, fique com imagens de Pantera Negra, um filme que tem grandes chances no Oscar do ano que vem:

A próxima edição do Academy Awards vai acontecer em fevereiro de 2019, premiando os filmes lançados neste ano.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux