A difícil tarefa de criar um prelúdio nos cinemas!

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A difícil tarefa de criar um prelúdio nos cinemas!

Por Gus Fiaux

Já faz um bom tempo que as franquias dominaram o cenário cinematográfico mundial. Para todos os lugares que olhamos, temos dezenas de continuações, reboots e universos compartilhados. Contudo, um modelo que acabou surgindo disso e que ainda gera uma certa resistência por parte do público são os prequels.

No modo geral da palavra, “prequel” é um neologismo que mistura o termo “pré” com “sequel” – continuação, sequência. Ou seja, são histórias que contam uma história antes de algum filme ou franquia já estabelecidos. E os exemplos não faltam: temos a segunda franquia de Star Wars, a trilogia d’O Hobbit e, mais recentemente, a saga Animais Fantásticos para nos darem uma ideia de como isso funciona.

Basicamente, um prequel se propõe a contar uma história anterior aos eventos já estabelecidos em uma franquia. De forma bem simplificada, essas franquias optam por “revelar um segredo que nunca foi contado” – e isso inclusive é geralmente usado para divulgar esses filmes. Pegando os exemplos que nós citamos:

  • A trilogia prequel de Star Wars conta os segredos sobre a família Skywalker e como Anakin virou Darth Vader.
  • O Hobbit revela de que forma Bilbo Bolseiro conseguiu o Um Anel.
  • Animais Fantásticos volta ao passado para contar como foi a ascensão de Gerardo Grindelwald e seu confronto mítico com Alvo Dumbledore.

E por aí vai. Quando os estúdios se propõem a fazer um prequel, é porque eles querem explorar alguma história que ainda não havia sido revelada por inteiro. Aí, entram uma série de reviravoltas e surpresas até que a história se desenvolve de forma a, em algum momento, tocar nos eventos da franquia original.

Mas é também aqui que reside o problema.

Geralmente, muitas pessoas são resistentes à ideia de um prequel pelo simples fato de que nós já sabemos como tudo aquilo vai acabar. Por exemplo, se falamos de Star Wars, temos dois episódios altamente criticados pelos fãs – A Ameaça Fantasma e O Ataque dos Clones. E o terceiro – A Vingança dos Sith –, por melhor que seja, é um filme que conta uma história previsível do começo ao fim.

Desde que começamos o filme, já sabemos que a história vai culminar na transformação de Anakin em Darth Vader. E por mais emocionante e brutal que isso possa ser, não há nenhuma grande surpresa ou segredo a ser revelado. Nesse caso, o prequel é uma simples história que leva a algo que todos já esperavam.

E esse é o maior problema quando falamos desse tipo de filme em Hollywood. Não temos nada a descobrir de novo sobre esses personagens e essa história. Todos nós já sabemos que, ao fim de Han Solo, ele vai ganhar a Millennium Falcon e se juntar a Chewbacca para se tornar uma espécie de “mercenário” intergaláctico.

No entanto, é justamente aí que entra outra mania dos estúdios de conseguir capitanear dinheiro: criar um segredo do nada. No caso de O Hobbit, por mais que a trilogia siga como o esperado, esse “segredo” vem na forma das várias distorções da obra original – algo que fica visível quando pegamos um livro de trezentas páginas e o transformamos em uma trilogia de filmes de duas horas e meia cada.

Por mais que eu defenda que livro e filme precisam se manter independentes, e que adaptações são sempre bem-vindas, fica nítido nesse caso que tudo o que é mostrado é uma forma de chocar o público que já conhecia O Senhor dos Anéis e que, por acaso, também havia lido o livro no qual os filmes se baseiam. Por exemplo, temos a presença de Legolas, o confronto de Gandalf, Saruman e Galadriel com Sauron e até mesmo um romance surgido do nada entre um anão e uma elfa.

Isso, é claro, é mesclado a outro problema que as franquias sofrem, de forma geral, mas que os prequels demonstram com ainda mais força: o excesso do fan service. Parece que esses filmes precisam te lembrar o tempo inteiro que fazem parte de um universo maior – mesmo quando isso sequer é necessário.

Não é incomum vermos filmes que se montam apenas para sugar até a última gota da nostalgia do público. E embora isso não seja necessariamente algo ruim, o problema começa quando a história é deixada de lado para que o filme sirva apenas para te lembrar de outra franquia.

Tanto Star Wars quanto O Hobbit fazem isso ao extremo. Temos a recriação de momentos, a volta de personagens que simplesmente não precisavam estar lá e várias outras formas de conectar esses filmes, que acabam soando como uma nítida forma de arrancar dinheiro dos fãs, e não de contar uma história orgânica e original.

Quando falamos de Animais Fantásticos, essa percepção cria um elemento interessante, já que o primeiro filme da franquia, lançado em 2016, era completamente o oposto do que se esperava de um prequel, mas acabou bruscamente se transformando em um, como podemos notar por Os Crimes de Grindelwald, atualmente em cartaz nos cinemas.

A ideia deste texto me veio à cabeça enquanto via a crítica do novo filme por Chris Stuckmann, um crítico internacional do qual gosto muito. Ao fim do vídeo – que você pode conferir aqui, em inglês –, ele deixa claro que Animais Fantásticos e Onde Habitam tem uma pegada bem diferente do prequel, enquanto Os Crimes de Grindelwald começa a incorporar elementos incômodos desse tipo de filme.

Após uma análise elaborada, percebo que o filme – apesar de ter me agradado em alguns aspectos – sofre de todos os problemas mencionados acima. Apesar de contar uma história previsível (o conflito de Dumbledore e Grindelwald), o longa tenta desviar do óbvio criando reviravoltas drásticas e mudando o cânone da franquia – enquanto também é uma enchente devastadora de fan services – os quais nem sempre são necessários ou soam orgânicos.

Claro que, dentro do contexto cinematográfico, vários prequels também possuem histórias interessantes – e alguns deles, por mais previsíveis que sejam, conseguem construir um universo próprio e contam com uma trama forte o suficiente para funcionar de maneira independente.

Se você quer alguns exemplos, aqui vão: Rogue One: Uma História Star Wars, X-Men: Primeira Classe, Indiana Jones e o Templo da Perdição, Três Homens em Conflito. São apenas alguns dos exemplos, que mostram que é simples e até melhor usar a trama do universo apenas como uma base, e não como uma prisão para as histórias.

Nesse sentido, o primeiro Animais Fantásticos realmente se sobressai, por trazer personagens diferentes, uma locação e uma temporalidade bem diferente dos filmes de Harry Potter e, principalmente, por não querer mudar elementos típicos do cânone.

Claro que Hollywood vai continuar produzindo prequels. De certa forma, a ideia de contar algo anterior a eventos que já conhecemos é até bem sedutora para o público, o que a deixa bem comercializável. No entanto, os estúdios precisam passar a tratar suas franquias com mais seriedade

Do contrário, na tentativa de aumentar o público e conquistar novos fãs, essas franquias simplesmente se perderão e abandonarão aqueles que as acompanharam desde o início.

 

Na lista a seguir, confira os 10 melhores prequels do cinema:

Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald está em cartaz nos cinemas.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux