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Porque Ciclope Estava Certo

Por Leo Gravena

AVISO: Este é um artigo de opinião. Se você concorda/não concorda com os pontos expressos no texto esteja livre para comentar. “Capitão América é fodão”, “Ciclope é um babaca” e “Wolverine rulez” serão automaticamente ignorados.

Os mutantes, desde seu inicio, foram criados para representarem as minorias, sejam negros, judeus, homossexuais… Representar qualquer um que não seja o “homem branco cristão heterossexual” e por muito tempo eles conseguiram fazer isso, porém, com o passar dos tempos os mutantes começaram a se tornar… Obsoletos, todo mundo era um mutante, haviam milhões, e os mutantes deixaram de ser tão relevantes quanto foram um dia, então chegou o Dia M. Os mutantes foram reduzidos a pouco menos de 200, após isso, os mutantes de Xavier ainda sofreram uma cisma, com Ciclope e sua equipe ficando em Utopia, enquanto Wolverine e alguns amigos e alunos voltaram para a antiga escola de Xavier, reconstruindo-a do nada.

A divisão dos X-Men não foi por um motivo bobo, como normalmente vemos tantas brigas começando nos quadrinhos, mas sim por diferentes ideologias e de como nós, seres humanos estaríamos caso ameaçados. De um lado, Ciclope possuía um “Time da Extinção” e treinava os jovens mutantes para serem soldados e lutar contra a sociedade que, com tão poucos, odiava e temia, agora mais do que nunca, os mutantes. Do outro lado, Wolverine acreditava de que elas deviam ser treinadas, mas não ser tratadas como soldados e deviam ser “crianças”. Admito que durante a cisma fiquei mais inclinado para a causa de Logan, porém ainda conseguia facilmente compreender Ciclope.

Basta ver de que, quase todas, as guerras da humanidade foram lutadas, e vencidas, por crianças, jovens. Com dezesseis anos você já seria recrutado, ganharia uma arma, um treinamento básico e seria mandado para as trincheiras. A verdade é que até hoje isso não mudou muito, então Ciclope até que estava certo em treinar os jovens, não apenas para lutarem, mas sim para se defenderem, sei que sendo diferente do clássico “Homem Branco Cristão Heterossexual” comentado anteriormente tento lutar pelos meus direitos sempre que possível.

Mas voltando a causa mutante, em Vingadores vs. X-Men a Força Fênix se encaminha para a Terra, para possuir Hope Summers; ela que muitos acreditam ser a Messias Mutante, que irá salvá-los da extinção, entre os crentes está Ciclope, porém a Força Fênix já destruiu diversos planetas e é uma força instável, que nem mesmo Jean Grey, por muitos anos, não conseguiu controlar, o que faz com que o Capitão América e outros Vingadores não queiram que a antiga força cósmica venha para a terra.

Toda vez Emma. Toda vez que fomos empurrados pro canto. Eles nunca pararam de vir. Nos fomos temidos e caçados. Nos tornamos extintos, somos tão poucos… E ainda assim eles continuam vindo por nós. Até mesmo agora, quando estamos poderosos, quando estamos fazendo o favor de refazer a Terra em um local mais habitável. Até mesmo agora… A humanidade se sente corajosa o suficiente para mandar seus heróis para roubar nossa inocente.. Para roubar o nosso amanhã… Eu finalmente entendi o porque. São eles. Os Homens sabem que não importa seus incontáveis pecados contra os mutantes, seus heróis irão protegê-los. Eles farão o que seus lideres pensam que precisa ser feito. Eu não vou tolerar mais isso, Emma. Isso muda agora. Sem mais Vingadores.

– Ciclope

Com Ciclope sendo possuído pela força cósmica, e mais tarde se tornando a Fênix Negra, ele obviamente fez diversos erros, entre eles o “Sem mais Vingadores” e claro que matar o Professor Xavier não foi uma das mais sabias decisões, a verdade é que, por mais que ele diga que não, já foi deixado claro que ele sabia o que estava fazendo, e tudo o que ele fez foi para tentar fazer com que os mutantes tivessem uma chance.

Durante diversos momentos, antes e após AvX, Ciclope sempre mostrou, comentou e apontou: nenhum desses “heróis” realmente ligou para os mutantes. Claro, eles faziam alianças quando necessário, mas os mutantes sempre foram os patinhos feios da Marvel, não apenas dentro dos quadrinhos, mas fora deles. É normal ver em qualquer fórum da Marvel fãs dizendo que “chega de mutantes nas histórias”… E ai você vê que realmente existe uma diferença entre ser um herói e ser um mutante.

É fácil você ver nos quadrinhos de mutantes personagens deixando de ser “vilões” e virando “heróis”. Claro existem mutantes vilanescos e heroicos, mas a grande maioria deles está no cinza, não existe preto e branco e essa é uma das razões que faz com que os mutantes sempre sejam vistos com maus olhos… Eles estão apenas querendo ser aceitos pelo resto do mundo, e quando você é odiado apenas por existir, é fácil se voltar para um caminho mais violento.

Acontece que, se olharmos pelo lado dos outros heróis, até mesmo da estupida humanidade, é fácil apontar o dedo e dizer: “Novamente esses mutantes de m*rda estão f*dendo com tudo!”. Afinal, não é exatamente isso o que vemos todos os dias? Basta ligar sua televisão e verá que um jovem homossexual foi espancado, que uma garota que ousou ler um livro foi linchada até a morte… O diferente, o que sai do nosso padrão, isso assusta. Não de temer achando que o mundo irá mudar radicalmente, mas isso é um fato da vida, qualquer diferença, por menor que seja, está sujeita a ser massacrada, a ser deixada de lado, ignorada… É fácil não é? Quero dizer, quando se há menos de 200 pessoas em um grupo de aberrações, o que impede de massacrá-las e fingir que aquilo, que aquele pequeno grupo tão terrível e constrangedor sequer existiu?

Brian Michael Bendis vem mostrando, a cada edição de Fabulosos X-Men de que, dizer que você apoia a causa, participar de um abaixo-assinado na internet, reblogar aquela imagem no facebook. Isso adianta de nada. Na verdade isso é simplesmente patético, porque nenhuma dessas ações realmente significa nada além de um alivio para a sua consciência, a sensação de que você fez alguma coisa… Mas ai tem um porém. Nós, seres humanos, somos egoístas por natureza, então, do que sequer adianta realmente tentar? A verdade é que enquanto um problema não nos afeta diretamente, quando não podemos sentir e tocar toda a dor, desesperança, quando não podemos realmente nos sentir deslocados e quebrados por não pertencermos a algo, isso simplesmente não nos afeta. É apenas uma terrível imagem no seu computador, na sua TV, que desaparece automaticamente assim que você a desliga.

Ciclope sempre tentou mudar isso, mudar esse conceito. Não adianta apenas dizer que você “não é contra” e ficar sentado e deixar que o ódio e a violência continue, os mutantes que, mesmo ressurgindo, ainda são poucos, devem se unir e lutar por seus direitos. Mostrar a humanidade o que são capazes de fazer, mostrar que eles querem ser tratados como qualquer um e que o gene X não define quem eles são. E nenhuma equipe de “Vingadores + X-Men” irá mudar isso, porque não importa o quanto os mutantes mostrem seu valor, sempre haverá alguém que os odeia por terem nascido com um cromossomo a mais.

Sei que, nesta parte, muitas pessoas já devem ter parado de ler, achado que o texto está ruim, outros podem estar pensando de que estou usando os mutantes como uma metáfora para a comunidade LGBT, negros ou qualquer minoria… A verdade é que sim, e não. Fato é que este assunto ainda deixa as pessoas desconfortáveis. Não adianta deixar as coisas embaixo do tapete e o que Scott Summers vem mostrando é que, não fazer nada é tão ruim quanto estar espancando alguém apenas por ele ser diferente.

Do que adianta fazer uma equipe de Vingadores com Mutantes e agir como se isso fosse mudar radicalmente a maneira que as pessoas enxergam eles, como se apenas por 4 mutantes serem Vingadores as pessoas irão do nada começar a pedir autógrafos e tirar fotos com um mutante escamoso ou de pelos vermelhos na rua? O time que vimos formado em Fabulosos Vingadores é apenas um misero band-aid colocado em uma ferida exposta.

Poderia ficar horas aqui, discorrendo sobre como os mutantes sempre foram maltratados, como sempre foram ridicularizados e deixados no canto, como sempre foram o bode expiatório e sobre como Ciclope e sua equipe estão corretos – afinal realmente acredito que, quando você defende algo, você deve escolher um lado e ficar nele até o fim – mas não, deixo aqui, para encerrar o meu ultimo post no site, uma frase de Kitty Pryde, de uma revista antiga, Novos Mutantes #45, de 1986. Nela há um garoto, Larry Bodine, que possuía o poder de manipular luz e até mesmo criar esculturas luminosas. Na mesma edição Larry se suicida quando é chamado de “mutie”, em uma fantástica história escrita por Chris Claremont:

Alguns de vocês me conhecem. A maioria não. Estou aqui porque acho que conhecia melhor o Larry Bodine. Mas isso não é dizer muita coisa. Eu dificilmente sequer conhecia ele. Se conhecesse, talvez não estaríamos em seu memorial. Quem era ele, que nos reunimos para ficarmos de luto por? Quem sou eu? Uma pirralha de quatro-olhos, sem peitos, CDF, Hebe, arrogante, aberração pretensiosa do Xavier. Não gostou dessas palavras? Eu poderia usar algumas melhores. Eu ouvi piores, quem aqui não? Tanta vezes, tão casualmente, que talvez nos esquecemos o poder que elas tem de machucar. Neguinho, terrorista, viado, mutie… A lista é tão longa e cruel. São tantos rótulos, repressões… E eles machucam. Mas normalmente rimos disso, ou retrucamos – com xingamentos, ou punhos – ou sofremos em silêncio. Nada demais, é a aspereza da realidade, certo? Para que fazer confusão? O problema é que alguém disse que Larry Bodine era um “mutie”, eles acertaram em cheio, porque ele era. O poder dele criava beleza. Apenas isso. Ele fazia com luz e cores o que Mozart fazia com musica, e ele queria nada mais do que ser aceito por seus colegas, e quem sabe até mesmo desejado… E não é isso o que todos realmente queremos? Ter amigos? Pessoas que liguem para nós? Não ficarmos sozinhos? Se tivermos sorte, temos alguém a quem recorrer. Larry não tinha. Ele pensou, que se as pessoas soubessem a verdade, iriam parar de ver ele e ver apenas o rótulo, a marca. Sua “Letra Escarlate” pessoal. Então ele escondeu a verdade e viveu com medo de ser descoberto. Ele até mesmo se juntou quando outros ofenderam mutantes. Não importava o custo de sua alma se isso faria sua vida um pouco melhor. Essa é a tragédia. Essa é a nossa vergonha. Pensem no que dizem, imagine se seria engraçado sendo dito sobre você. É fácil fazer graça, é realmente fácil ser cruel. Tente alguma vez estar no outro lado. Se é para aprendermos algo sobre a morte do Larry, deveria ser isso…

Quer saber quem eu sou?

 

Sou Katherine Pryde.

 

E essa é a única coisa que importa.

 

O resto são apenas rótulos.

– Kitty Pryde

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sobre o autor Leo Gravena

Editor-Chefe | @LeoGravena
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